Começamos pelo
principio. Sempre.
O meu inicio
enquanto ser humano completo, mãe,
mulher e sonhadora foi quando soube que estava grávida. Toda eu cheia
de um feijãozinho, tão pequenito que o
pontinho mal se via na primeira e emocionante ecografia que fizemos. Fizemos,
sim, porque é dos dois e apesar de encher a boca quando vocifero 'o meu filho'
sei que também é dele. Não fosse o gajinho a tromba chapada do pai. Traidor,
que te carreguei durante 9 longos meses e depois sais-me igualzinho a ele.
Serei só eu ou
quando o peste começa a despoletar asneiras e trapalhadas torna-se
automaticamente 'o teu filho'?
É inevitável. Meu para as coisas boas, dele para as más. Apesar de o feitio que
o impele a asneirar ter grandes
parecenças com o meu próprio feitio. Mau feitio dizem. Mal dizentes.
E
assim começa a minha jornada enquanto mãe, responsável por outro ser humano que
mal abre os olhos e sinto
um AMOR GIGANTE. Maior que
eu, maior que o universo, quase não cabe em mim.
Penso, e agora,
estarei à altura? Claro que sim, só ainda não sabia. Mas descobri facilmente a
essência do que é ser mãe um par de horas depois do nascimento quando ele
começou a piar… qual passarinho, não respirava. 'Não se preocupe mãe, é normal.
O Rafael nasceu antes do tempo e ainda não aprendeu que tem que respirar….' O
quê? Morri. Ressuscitei. E sentei-me à ponta da cama com a mão encostada ao
nariz dele não fosse ele esquecer-se outra vez. Inspira pequenito. E agora
expira. Isso mesmo… E assim passei a 1ª noite da minha vida como mãe, mulher e
sonhadora. Pois se não dormi, sonhei. Acordada. Acordadíssima aliás. Porque
além do minorca não saber que para viver tem que fazer aquela coisa descabida,
a minha companheira de quarto emitia uns sons estranhíssimos que me faziam
lembrar o meu pai naquelas noites em que se deitava mais carregado e roncava que até as paredes
abanavam. E a criança dela chorava. Berrava. Belos pulmões, pensava eu,
enquanto via as horas a passarem e desejava ardentemente que fosse dia e depois
noite e dia novamente para poder ir FINALMENTE para casa. Não desfazendo quem
tao bem me tratou, o fantástico parteiro Ricardo do HSFX que me drogou e me
perguntava, 'de 1 a 10, quanto te dói?'
E eu… 11!!! Pimba, mais uma dose para não te queixares.
O Pai fumava. E
fumava e fumava. E bufava a olhar para o
CTG há tantos dias ligado sem dar sinal de desenvolvimentos. E espalhou-se ao
comprido naqueles corredores quando a querida auxiliar o foi chamar 'é agora pai, vamos?' Aguentou-se bem. Muito
bem para quem tem pavor de sangue e agulhas e tudo e tudo… Firme e hirto até ter o filho nos braços. E
depois começou a disparar mensagens a todos os amigos e familiares com a
primeira fotografia de muitas do pequeno Rafa.
E assim começam os
sonhos. Os mais realistas e desejados sonhos que uma mãe, mulher e sonhadora pode ter. Vou-te dar o
mundo, a ti e a mim. E aqueles meus sonhos, individualistas e egocêntricos
passaram automaticamente para segundo plano. Mais nada importa.
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